Perco-me tantas vezes a pensar se aquilo que eu penso que existiu, existiu mesmo. Ou se fui só eu que imaginei; se foi só a minha visão turva a toldar-me o raciocínio.

                Perco-me a tentar perceber o que não tem compreensão possível e perco-me a perder tempo com isso, a rabiscar o que sei e o que gostava de saber de mim e da vida e do que sou e do que me tornei, numa folha em branco, que torno minha, como se sempre o tivesse sido.

                E tivesse eu artifícios de poder apropriar-me de outras coisas, haveria muito mais de mim em mim e de mim no mundo. Apropriar-me-ia do tempo e do que faço com ele, do meu cérebro e do que ele pensa, do meu coração e do que ele sente. Pudesse eu ter a certeza que têm aqueles que com ela são brindados e seria capaz de mover mais pedras do que aquelas que movo e brilharia muito mais e teria muito mais cor.

                Mas perco-me sem sair do lugar, perco-me quando me tento encontrar. E encontro-me tão depressa a rir como a chorar, tão depressa a morrer como a renascer, tão depressa a cair como a levantar. Perco-me e encontro-me e continuo sem saber quem sou.

                E tivesse eu artifícios de munda mais olhar para trás, seria um lugar melhor este onde agora habito, e tão leve a minha dor e tão despreocupada a minha preocupação que até a vida, seja lá o que isso for, teria inveja de mim.

                E tivesse eu o condão de nunca mais me perder e de apenas me encontrar, já o mundo me teria agradecido por nunca mais me ver chorar.

                E tivesse eu artifícios de nunca mais olhar para trás, ficaria aqui e tu exactamente onde estás… perder-me-ia agora no sonho de já conseguir sonhar. Sonharia com o momento de libertar as asas e voar …

 

 

Andreia Pacheco

28.07.09

 

publicado por Disenchanted_Cinderella às 00:18 | link do post
música: Chained

O resto de tudo…

 

                Não te disse, mas fazes-me falta e tenho medo que a falta de ti se perpetue em mim neste vazio que há muito me acompanha. E que esta ferida não sare, que fique para sempre aberta, que não cicatrize nunca mais e que eu nunca mais consiga viver, ou viver sem isto a rebentar-me no peito.

                Porquê? Primeiro, o esforço, depois, o desperdício, o não-saber, o deitar – fora de tudo, de todos os esforços, criações e sacrifícios.

Não te disse, mas ainda me dóis cá dentro, dóis-me na alma e no tempo, dóis-me e não devias. Dói-me pensar que te conheci e ver que estive muito longe disso; dói-me ver promessas destruídas, pedaços de vidro partidos, espalhados no chão; dói-me ver, dói-me ver o mundo daqui, desta perspectiva, sem ti; dói-me já não crer, dói-me não te querer, querendo-te mais que tudo. Dói-me. Dóis-me. Ainda…

Não te disse, mas tiraste-me muito mais do que o que me deste. Tiraste-me tudo, deste-me tudo e tiraste-me tudo de novo. E eu fiquei sem nada duas vezes, tão sem nada que, se houvesse menos de nada, com menos de nada teria eu ficado. Deste-me o mundo, mas foste-lhe tirando os rios, os mares, os sonhos, foste derrubando o que restava de mim, foste destruindo o meu ser, a minha réstia de esperança, o que sobrou de mim depois da tempestade que foi a nossa existência. Tiraste-me de mim, levaste-me contigo e mataste-me com a indiferença perante um adeus que me perfurou o ser até ao âmago. E continuas a matar-me porque, estúpida e inexplicavelmente, ainda não te deixei morrer.

Não te disse, mas talvez nunca mais te olhe sem mágoa, nunca mais te fale sem dor, nunca mais acredite em ti sem dúvida. Quem sabe, talvez nunca te olhe, nunca te fale, nunca acredite, pura e simplesmente.

Não te disse, mas foste o melhor e o pior que me aconteceu. Soubeste ser tudo o que eu quis que fosses e tudo o que menos desejei que fosses, fui princesa e monstro ao teu lado, fomos céu e vendaval. Meu Deus, nem sei mais o que fomos, o que foste, o que nos aconteceu, quem nos matou, o que morreu.

Não te disse, mas tudo o que existe é o antes, o durante e o depois de ti. O resto é nada. O mundo é nada, o tempo é nada, eu sou o nada em que tu me deixaste.

Não te disse, mas nunca mereceste uma lágrima minha, na verdade, nunca me mereceste, nem a mim, nem ao meu respeito, dedicação, as palavras calmas e pacientes, a compreensão; não mereceste o melhor de mim, não mereceste o meu medo, as minhas dúvidas, o meu carinho, o meu amor embrulhado num pedaço de mim profundo; não mereceste a dor que me atravessa, que me dilacera o espírito, não mereceste nada e, o que mais dói, é saber que tenho a perfeita consciência disso e que não me arrependo de ter-te dado tudo o que tinha e não tinha, tudo o que fui e o que não fui também. Inventei mundos por ti, para ti. Colhi forças sei lá de onde, movi estrelas, parti o meu coração de cristal outra vez.

Não te disse, mas agora duvido de tudo e tenho medo, muito medo do meu próprio medo, do mundo que criei contigo, medo da tua morte que nunca aconteceu em mim. E pergunto-me: para quê? Porquê tanta emoção, tanto enigma, se tudo o que quero é o espelho da verdade? Para quê tanto a dor, se agora tudo é nada?!

Sou a aberração mais idiota por ainda te sentir; sou demais para ti e sinto-me minúscula, a menor das formigas, sou a Ignorância com “I” grande por gastar o meu tempo contigo, quando tu já me tens a anos-luz de distância. E sou o maior dos cúmulos por ter a perfeita consciência disso.

Adeus. Vai-te embora. Da minha mente, da minha vida, de tudo o que eu sou. Apaga-te. Desenho-te o meu último aceno de despedida. Volta quando souberes viver e amar. Se não aprenderes, deixa-te ficar. Não voltes, não venhas. Deixa-te ficar. Adeus. Não te quero ver voltar.

Isto faz parte de tudo aquilo que não te disse e que nunca vais saber, a menos que um dia a verdade te assalte e ilumine a tua memória. Agora dorme, isso tu sabes fazer.

Não te disse, mas também quero adormecer…

 

Andreia Pacheco

29-06-09

(1h26minutos)

 

publicado por Disenchanted_Cinderella às 22:00 | link do post
sinto-me: Igual amim, diferente de ti
música: Memories - Ana Free
tags:

Renascer

 

                Matam-me. Todas as memórias que eu não quero ter, todas as ilusões que eu não quero ver, as vozes que eu já não quero ouvir. Matam-me.

                Arrancam-me. Não os olhos, não a boca, não o corpo em si, mas a vida, o sentido, a razão, o tempo, o espaço. Arrancam-me. O que eu sou. Arrancam-me.

                Calam. O fim das vozes que eu não quero mais ouvir, mas também não quero silenciar. Calam. Todos os sonhos de outrora, todos os incómodos do agora, todas as dúvidas e indecisões. Calam. Não os olhos ou as veias, vêem, pulsam e falam. Os outros calam.

                Vivem. O sonho perdido de ser o que já não são, a chama apagada da desilusão. Vivem. Acordados, dormentes, pensamentos doentes que já nem pensamentos são. Vivem.

                Perdem-se. Os gritos abafados, as lágrimas, os tempos. Perdem-se no próprio tempo de ser o que já não são. Os espaços perdem-se noutro lugar que não o seu. Perdem-se. Todas as emoções. Perdem-se.

                Choram. À luz das fogueiras, os peitos quebrados, os ventos distantes. Choram. Os mal-amados, os amados, os amantes. Choram. As nuvens, escorrem lágrimas dos olhos do céu. As lápides choram a saudade, os oprimidos a liberdade, os vivos o amor. Choram. Todos choram. O mundo, os mundos, mudos, choram.

                Esperam. Que o tempo volte atrás, que passe rápido, que pare, que se vire do avesso. Esperam a possibilidade do impossível. Esperam mais do que seria credível. Esperam sem esperar, desesperam. Esperam. Que nada, ou tudo, aconteça. Esperam.

                Secam. As lágrimas que já não têm por onde escorrer, que já nem têm água para se formar. Secam. As árvores, as flores, até as dores. Secam. As coisas boas, as más. Secam.

                Explodem. Em mim, como bombas a rebentar, a ecoar na minha cabeça. Explodem. Pensamentos deturpados pela visão turva. Explodem. Sensações indesejáveis, fins, inícios, dores, alegrias, dissabores, paixões. Explodem. Não sou estóica. Explodem.

                Esquecem-me. Os castelos de areia. Esquecem-me. As noites de luar. Esquecem-me. As vozes distantes. Esquecem-me. As histórias de encantar. Os sorrisos doces. Os olhares hesitantes. Esquecem-me. (Quero que me esqueçam, como eu faço propositadamente, como eu lembro de me esquecer). Enfim, esquecem-me.

                Doem. Matam. Calam. Vivem. Perdem-se. Choram. Esperam. Secam. Explodem. Esquecem.

                Esquecem. Explodem. Secam. Esperam. Choram. Perdem-se. Vivem. Calam. Matam. Doem.

                Foi assim que aprendi. A deixar doer: a dor não pára, a diferença é que eu já não a sinto. A deixar morrer tudo o que já não queira, não possa, não deva viver. A calar aquilo que já não tem expressão suficiente para se expelir. A viver fria, pura, próspera, abundantemente. A perder, a deixar que se percam os sentidos, os gestos, as palavras (escondidas, por entre labirintos, perdidas). A chorar tudo, lágrimas, sangue, silêncio. A esperar até desesperar, até romper por dentro. A deixar secar a mortandade da natureza, a deixar secar o frio cruel, o sabor a fel. A deixar secar. A explodir violenta, forte, bruscamente. A deixar explodir tudo, dentro, fora, à volta de mim. A esquecer, a fingir, a fingir que esqueço, a esquecer que finjo. A perder tantas vezes o sentido entre um e outro que me esqueço do que é esquecer, que nem me lembro do que é fingir.

                Foi assim que aprendi a ser mais como eu. A ser maior. Melhor. Mais forte. Aprendi a morrer as vezes que fossem precisas até Renascer, igual a mim.

 

 

12-14.06.09

Andreia Pacheco

 

publicado por Disenchanted_Cinderella às 22:49 | link do post
sinto-me: Renascida?
música: Zzyzx Rd - grande nome, p/ uma música. Linda!

 

Linhas da vida

 

Estas linhas que hoje escrevo não são mais que linhas, frases que quiseram sair e que têm o direito de nascer.

Podem dizer muito, pouco ou nada e continuarem a ser essas mesmas linhas que quiseram sair,

Não as controlo e elas voam e correm e nascem, porque a vontade não se controla; quando muito, engana-se. E eu não consigo enganar estas linhas que hoje teimam em sair, só para mostrar que também vivem, só para lembrar que têm força, só para deixar uma marca, um sinal e cravar na alma essa vontade incontrolável, o desejo incontornável que têm de se libertar.

Não há uma imagem, uma voz, uma cor, uma palavra, um som para as definir. São apenas linhas.

São apenas as linhas que traçam a voz de quem conta, as asas de quem voa, as letras de quem escreve. São as linhas da vida que não têm quando, nem porquê, nem onde. São as linhas que comandam e têm o dom, a vontade e a graça de nascer.

 

 

Andreia Pacheco 4.11.07

 

publicado por Disenchanted_Cinderella às 22:45 | link do post
sinto-me: Esqecida!Nao me lembrava disto

O Adeus

 

“A manhã traz-me

Outra vez

O calor da chuva

Abro a janela

E pergunto-me

Porque não estás aqui

E não consigo explicar

Não consigo aceitar

Que todos temos que partir

Porque te amo

Devo deixar-te ir

Mas não aceito

A ausência da tua voz

E o calor do teu olhar

Foste a única que me abriu o coração

Agora é a hora

De respirar e acomodar

O último perfume

Que de ti ficou

Para que o meu coração

Não sinta

Mais fome de ti

Como uma flor

Desejando a chuva”

 

Peter Lêe Dolphein

 

Às vezes é preciso dizer adeus, por muito que nos custe. É preciso crescer, e crescer também é deixar bagagens de sonhos e histórias para trás, enterrá-las e dizer-lhes que acabou.

Há coisas que nunca mais voltam e outras que, simplesmente, nunca existiram, mas que nós fizemos questão de alimentar, para depois, mais tarde, lhes dizermos também adeus. Porque, afinal de contas, gostamos de acenos e despedidas; gostamos de ver o sal das lágrimas a escorrer pela face e a chuva a cair, certinha, pela janela; gostamos de olhar e não ver, ou então ver o que não existe, só para que depois possamos dizer adeus e fazê-lo à nossa maneira.

Porque dizer adeus é assim – duro e cruel –, é uma parte de nós que nos deixa e é por isso que é tão difícil. O que mais nos dói é termos que dizer adeus a nós próprios, como se arrancássemos o chão que pisamos, como se nos destruíssemos a cada passo.

Quero acreditar que só digo adeus ao que já não quero, ao que na verdade, nunca quis e ao que jamais quererei, para que mais tarde não seja como a flor que deseja a chuva nem o olhar apagado que precisa de luz.

 

Andreia Pacheco 18.01.08

 

publicado por Disenchanted_Cinderella às 22:44 | link do post

Pah, isto pode até não ter interesse nenhum, mas escrever faz parte de mim!

Vejam os textos, comentem, digam bem, mal, o que for.

O que interessa é a vossa opinião.

Vamos trocar impressões (nao digitais, okay?) :D

 

Outra coisinha, nao uses os textinhos para o teu portefólio ou algo do género. É feio, bem mais original é puxar pela cabeça e deixar um comment.

 

 

Obrigada!

 

 

 

Disenchanted Cinderella,


Andreia Pacheco

publicado por Disenchanted_Cinderella às 22:28 | link do post

Cinderella, não percas um sapato, perde os dois. De cristal já te chega o coração e o cristal parte e partir não é arte nem é de bom-tom.

Cinderella, esquece o mundo lá fora, esquece que a tua carruagem não é mais que uma abóbora, esquece as doze badaladas. Afinal, a tua vida não é mais que um conto de fadas!

Cinderella, vê o mundo pela janela – vê-se melhor e é mais seguro. Cinderella, o teu vestido era de veludo?

Cinderella, para que queres tu um príncipe encantado? Ele deu-te a mão, tu deste-lhe o coração. O negócio foi pouco equilibrado!

Cinderella, não vês que tenho razão? Quando a meia-noite passar, vais para o teu quarto chorar com o sapato de cristal na mão. Davas-lhe os dois e não havia nada mais a lamentar.

Oh pobre Cinderella, que vida, que confusão! Será que é teu o príncipe que te roubou o cristal do pé e do coração?

Oh Cinderella, o cristal parte e partir não é arte e o teu príncipe de cristal pegou no teu coração e voou para o seu reino distante, onde o cristal vale mais que diamante e onde tu não existes, nem por um instante…

 

 

Andreia Pacheco

1.10.2008

 

publicado por Disenchanted_Cinderella às 22:32 | link do post
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